[Resenha] Sal – Leticia Wierzchowski

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Um farol enlouquecido deixa desamparados os homens do mar que circulam em torno da pequena e isolada ilha de La Duiva. Sob sua luz vacilante, a matriarca da família Godoy reconstitui as cicatrizes do passado. Em sua interminável tapeçaria, Cecília entrelaça as sinas de Ivan, seu marido, e de seus filhos ausentes, elegendo uma cor para cada um. Com uma linguagem poética, a premiada escritora gaúcha Leticia Wierzchowski, autora de A casa das sete mulheres, dá voz e vida a cada um dos integrantes da família Godoy, criando uma história delicada e surpreendente, enriquecida por múltiplos e divergentes pontos de vista.

O que eu achei de Sal?

Esse livro, o primeiro da minha meta de leitura desse ano, teve uma super propaganda quando foi lançado pela Editora Intrínseca e eu, que sou absolutamente fã dos livros que eles publicam, fui logo colocando ele na minha lista. Confesso que acabei deixando ele pra lá durante um bom tempo, mas como um dos desafios do qual estou participando estabelecia como leitura de janeiro um livro nacional, resolvi começar por ele.

A princípio, me interessei bastante pela história de Sal, porque a sinopse é muito intrigante e a propaganda do livro, envolvendo as cores atribuídas a cada um dos personagens, me deixou bem curiosa. O livro é dividido em capítulos que são nomeados pelas cores dos personagens, e cada um deles é narrado pelo personagem que da nome – ou cor – ao capítulo. Cada um desses capítulos traz fragmentos da história da família Godoy, que há gerações está estabelecida ao redor do Farol, na ilha de La Duiva e que, em razão de alguns acontecimentos estranho, se desintegra até que não sobre praticamente nada.

Ivan e Cecília se conheceram quando muito jovens, enquanto ela trabalhava na casa da família Godoy, e viveram um romance proibido, escondido durante muito tempo, até que a mãe dele, uma megera, que reprovava o namoro, os descobriu. Ivan foi contra a mãe e causou uma briga na família, que culminou na morte de Don Evandro, seu pai. No fim das contas, se casou com Cecília e tiveram cinco filhos. A história começa com Cecília sozinha na casa onde um dia viveram tantas pessoas, tecendo com suas lãs coloridas a história de uma família castigada por tragédias.

Colocando as coisas dessa forma, a história de Sal parece ser um quebra-cabeça que vai ser montado conforme o leitor avança os capítulos. Só que, infelizmente, não é isso que acontece. Pelo menos comigo a experiência não foi muito agradável nesse sentido. Como havia dito antes, cada capítulo é narrado pelo ponto de vista de um personagem, porém, as narrativas de cada um são muito mais influenciadas pelo que sentem e pelo que eles próprios consideram importantes, o que não confere um desenvolvimento linear à trama. Para alguns isso seria uma sacada maravilhosa da autora, uma prova de sua genialidade.

Só que para mim, isso não deu certo. Sal não é o meu estilo de leitura. A ideia de manter a personagem Cecília como o eixo onde todas as histórias se costurariam, acabou não dando certo e, em vez de várias histórias costuradas, formando uma só, um único tapete com várias cores, o resultado foi um catastrófico monte de retalhos, folhas soltas de uma história que não conseguiu se juntar em uma só.

Fiquei triste. De verdade. Queria muito que Sal tivesse dado certo pra mim. A proposta foi muito boa, mas no fim das contas, acabei perdida e confusa, pela descontinuidade dos capítulos e, além disso, em muitos momentos, entediada, já que em várias páginas tinha que ler pela milésima vez o que já tinha lido.

O vocabulário é primoroso, tem um nível altíssimo e torna o texto de Sal uma construção bela, cheia de descrições e de detalhes. É uma prosa quase poética, de tão sensível chega a ser etéreo. Tanto que temos total noção do perfil psicológico e dos sentimentos dos personagens, mas não conseguimos desenhá-los em nossa mente, uma vez que a autora deu muito mais importância ao que cada personagem sentiu quando viveu cada acontecimento, do que aos caracteres físicos – até mesmo pela natureza da história e por seu estilo de livro de memórias.

É uma pena não ter encontrado um sentido na conclusão de toda a história, porque consegui entender boa parte da proposta da autora ao estabelecer as cores aos personagens, ao contar o ponto de vista de cada um e de tentar tecê-los todos em uma única e intricando trama, mas não creio que ela tenha conseguido isso.

Apesar de tudo, vale a pena ler Sal. Pode ser que você tenha uma visão completamente diferente da minha sobre essa história e a forma como ela se apresenta e, se tiver, gostaria de saber, me conta?

Mora em Ribeirão Preto, gosta de ler desde sempre. Apaixonada por café, por um bom vinho e por histórias que aquecem o coração.

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